Após críticas nas redes sociais e a abertura de uma investigação pelo Ministério da Justiça, a CazéTV alterou o protocolo das propagandas de apostas exibidas durante a Copa do Mundo. A publicidade passou a ser veiculada com menos chamadas integradas à narração e sem estímulos diretos às apostas no calor do jogo.
Em seguida, o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) emitiu uma liminar recomendando a suspensão desse tipo de publicidade, considerada abusiva.
Esse recuo evidencia como a publicidade de apostas funciona como uma corrida por receita, na qual cada ator do mercado tem incentivo a aderir não apenas pelo dinheiro, mas também para não conceder vantagem aos concorrentes, a menos que a pressão pública reverta esses ganhos.
Impactos para emissoras, clubes e políticos
Para uma emissora, recusar publicidade de apostas pode significar menos recursos para adquirir direitos de transmissão, contratar equipes e disputar audiência. Para um clube, abrir mão da cota de patrocínio pode fortalecer o rival, que terá mais recursos para contratar jogadores e técnicos. Para políticos, enfrentar o setor representa contrariar empresas organizadas, com lobby e contratos, enquanto a reação social e eleitoral ainda é fragmentada.
Dentro desse cenário, até a crítica pública pode ser vista como parte do jogo competitivo, já que defensores da CazéTV chegam a tratar as críticas como orquestradas por concorrentes, e não como uma reação legítima à publicidade agressiva.
Diferença entre patrocínio e estímulo direto às apostas
Embora a concorrência possa se beneficiar das críticas, é importante reconhecer a diferença entre uma marca aparecer como patrocinadora e uma transmissão apresentar uma “odd” como chance de enriquecimento. No primeiro caso, vende-se presença; no segundo, tenta-se transformar a ansiedade do jogo em decisão financeira.
Em comparação, no mercado financeiro, recomendações que influenciam decisões de investimento são reguladas, evitam conflitos de interesse e não podem ser vendidas com promessas de ganho ou linguagem apelativa. Seria estranho ver uma análise econômica na TV atravessada por um convite para comprar uma ação “agora”.
Assim, deveria ser ainda mais estranho ver “odds”, bônus e apostas grátis tratados como dicas informais durante uma partida. Embora a aposta não seja um investimento claro, está associada à promessa de retorno e carrega risco de vício.
Pressão pública como mecanismo de mudança
Escolhas individuais éticas são importantes, mas insuficientes para reorganizar os incentivos do setor. Uma emissora, clube, influenciador ou político pode recusar dinheiro e apoio das apostas, mas agindo isoladamente assume custo privado enquanto o restante do setor lucra com receita, audiência e influência. Assim, a decisão responsável se torna desvantagem competitiva.
Por isso, a reação pública é o mecanismo capaz de transformar críticas dispersas em custos reputacionais, comerciais e políticos. O setor das apostas já atua de forma organizada, com lobby, contratos, publicidade e presença no Congresso Nacional.
Fonte: FOLHA DE SP | POLITICA









