Southampton, Inglaterra, 23h30, 3 de dezembro passado. Henry Nowak, 18 anos, britânico branco, cruzou caminho com Vickrum Digwa, 23 anos, britânico de ascendência indiana e religião sikh. Nowak voltava de uma festa, sem sinais de embriaguez, enquanto Digwa caminhava com duas adagas à cintura, uma kirpan ritual e outra maior. A provocação inicial de Nowak desencadeou um ataque fatal.
Digwa esfaqueou Nowak várias vezes com a adaga maior. Após o ataque, seu irmão ligou para a polícia e alegou falsamente que Nowak teria proferido injúrias raciais e agredido Digwa. A mãe de Digwa chegou antes da polícia e removeu a arma do crime. A polícia foi recebida com versões conflitantes: Nowak, ferido e pedindo socorro, e Digwa negando o uso da arma, seguindo o relato combinado com seu irmão.
Manifestantes com fotos de Henry Nowak protestaram em Southampton, no Reino Unido, em 2 de junho, após a divulgação dos vídeos da ação policial que mostraram falhas no atendimento à vítima.
Durante a abordagem, um policial desconsiderou o pedido de socorro de Nowak, dizendo: “Não acho que você foi esfaqueado, cara”, enquanto algemava o jovem caído, que repetia: “Não consigo respirar” — uma frase que ecoa a súplica de George Floyd, seis anos antes. Nowak foi declarado morto às 0h30.
A condenação de Digwa desencadeou uma terceira tragédia: manifestações xenófobas convocadas por líderes da direita radical britânica, como Nigel Farage, sob o lema “vidas brancas também importam”. Os protestos resultaram em confrontos com a polícia. JD Vance, vice de Donald Trump, também se envolveu, culpando a “invasão em massa de imigrantes” e convocando à “ira justa”. Em resposta, Mark Nowak, pai de Henry, pediu que a morte do filho não fosse usada para fomentar divisão ou ódio.
O mistério sobre a atitude policial pode estar relacionado a um documento de “compromisso antirracista” da chefia da polícia britânica, publicado no ano anterior. O texto propõe o objetivo de “igualdade de resultados” por meio de respostas específicas às experiências de cada grupo étnico, ao invés de tratar todos igualmente.
Essa abordagem, baseada no princípio de “tratar desigualmente os desiguais”, pode ter levado os policiais a enxergarem os envolvidos como símbolos de grupos étnicos, e não como indivíduos. Assim, Nowak teria sido visto apenas como o “homem branco ocidental” e Digwa como a “minoria étnica oprimida”.
Enquanto isso, figuras políticas como Farage e Vance usaram essa narrativa para acusar falsamente o Estado britânico de discriminação contra brancos, invertendo os sinais do debate identitário. Segundo os manuais dessa corrente, as instituições devem “tratar desigualmente os desiguais” para ensinar uma lição, o que pode ter contribuído para o desfecho trágico em Southampton.
Fonte: FOLHA DE SP | POLITICA









