O Tratado de Versalhes, assinado em 28 de junho de 1919 no Salão dos Espelhos do Palácio de Versalhes, estipulou as condições da rendição alemã na Grande Guerra. Neste 17 de junho de 2026, o governo Trump firmou o Memorando de Entendimento (MoU) pelo qual oferece sua rendição condicional ao regime do Irã.
Os ataques de Israel no Líbano adiaram a cerimônia de assinatura, prevista para o resort de montanha suíço de Burgenstock, com vista para o lago Lucerna, uma escolha destinada a prevenir manifestações capazes de constranger tanto a Casa Branca quanto a ditadura militar-teocrática de Teerã.
O MoU simboliza o triunfo iraniano. Apesar dos golpes devastadores às infraestruturas do Irã, o regime que Trump prometeu derrubar emergiu do conflito renovado e mais radical, como interlocutor da maior potência do mundo. A oposição popular foi esmagada, e o MoU proíbe a interferência dos EUA nos “assuntos internos” do país persa, garantindo plena liberdade para a repressão.
Os Estados Unidos ficam obrigados à cessação “permanente” da guerra, à retirada de suas forças das “proximidades” do Irã em 30 dias e à imediata liberação das exportações petrolíferas iranianas. As negociações para o tratado final têm prazo de 60 dias, passíveis de extensão. Em troca da reabertura do estreito de Hormuz, o bloqueio naval americano foi levantado, mas o MoU admite a hipótese de cobrança futura de taxas de trânsito pelo Irã.
A única suposta concessão iraniana é a reafirmação da promessa retórica de não fabricar armas nucleares. Os destinos do urânio altamente enriquecido e do programa nuclear dependem das negociações finais, que também eliminariam as sanções econômicas e gerariam um plano de reconstrução do Irã no valor de US$ 300 bilhões.
Os objetivos de guerra de Trump, como o encerramento do programa iraniano de mísseis e o fim do apoio a milícias regionais, não aparecem no MoU. Pelo contrário, o documento permite ao regime iraniano retomar o financiamento do Hezbollah, do Hamas e das milícias xiitas iraquianas, consolidando o Irã como principal potência do Oriente Médio.
A Alemanha derrotada na Grande Guerra não teve direito a participar das negociações do Tratado de Versalhes. Israel não foi convidado a negociar ou assinar o MoU, que impõe o fim da guerra “em todas as frentes, inclusive o Líbano”.
Fonte: FOLHA DE SP | POLITICA








