Jogadores muçulmanos se prostrando diante de Alá; atletas da Alemanha e de Curaçao rezando juntos após a goleada de 7 a 1 dos europeus; e um círculo de oração dentro da seleção holandesa. Essas cenas marcam a Copa do Mundo de 2026 como uma das mais abertamente religiosas da história do futebol, refletindo também mudanças sociais mais amplas.
Segundo Mariecke van den Berg, professora de teologia na Vrije Universiteit de Amsterdã, “isso diz algo sobre o retorno da religião à esfera pública”, embora essa nova paisagem religiosa tenha características diferentes das anteriores.
Contexto histórico e manifestações atuais
Historicamente, o catolicismo predominou na Copa do Mundo, com países de maioria católica vencendo 18 dos 22 torneios disputados. A antiga Alemanha Ocidental, com população dividida entre protestantes e católicos, conquistou três títulos, e a Inglaterra foi o único campeão não católico, em 1966. O gesto religioso mais comum ao longo das décadas foi o sinal da cruz.
Atualmente, o cristianismo evangélico e o Islã têm ganhado maior visibilidade. Após a final de 2002, jogadores brasileiros celebraram a vitória com camisetas estampadas com “Jesus ♥ You”. Em 2022, a seleção marroquina recitou o primeiro capítulo do Alcorão antes de vencer a Espanha nos pênaltis e realizou a prostração Sujood al-Shukr em agradecimento a Alá, prática seguida por vários jogadores muçulmanos, como o egípcio Mo Salah.
Reações e desafios
Essas expressões religiosas geram reações diversas. A extrema direita europeia tem criticado manifestações islâmicas, como no caso do zagueiro alemão Antonio Rüdiger, que foi acusado injustamente após publicar uma foto em um tapete de oração. O político holandês Geert Wilders também publicou uma mensagem ofensiva contra jogadores marroquinos, o que levou alguns atletas de origem marroquina a optar por defender o país natal de seus pais.
Por outro lado, jogadores cristãos evangélicos, muitos descendentes de imigrantes, têm maior aceitação na Europa. Após a partida entre Alemanha e Curaçao, o alemão Felix Nmecha afirmou: “Depois da partida, somos todos cristãos… Todos acreditamos que Jesus é glorificado através do jogo”.
Proselitismo e apoio da fé
O proselitismo evangélico é comum entre os jogadores. Nmecha e Kenji Gorré, de Curaçao, fazem parte da rede cristã Ballers in God, que promove produtos com mensagens religiosas. O goleiro brasileiro Alisson Becker, por exemplo, ajudou a batizar seu ex-companheiro Roberto Firmino.
Van den Berg destaca que o cristianismo evangélico conecta-se com a cultura jovem por meio de sermões curtos e emocionais, oferecendo um enquadramento ético claro que atrai muitos jogadores. A fé pode ter efeito positivo, ajudando atletas a lidar com a solidão, a pressão e os desafios da carreira, especialmente para aqueles que migram jovens e enfrentam dificuldades emocionais.
Fonte: FOLHA DE SP | ESPORTES









