Em entrevista ao videocast Desenquadrando, a cientista política Esther Solano afirmou que o crescimento do bolsonarismo não se explica apenas pelo antipetismo ou pela insatisfação com a política tradicional. Segundo ela, a ascensão da direita nos últimos anos foi impulsionada por mudanças profundas nas percepções e valores de grupos historicamente ligados à esquerda, como jovens, mulheres e trabalhadores de baixa renda.
Solano destacou que a extrema direita conseguiu interpretar transformações sociais que já estavam em curso antes da eleição de Jair Bolsonaro (PL). Para a pesquisadora, o avanço da direita ocorreu em duas camadas: uma conjuntural, marcada por fatores como a Operação Lava Jato e o sentimento de frustração com a política; e outra mais profunda, envolvendo mudanças nas subjetividades de grupos sociais progressistas.
“Quando a extrema direita chega ao poder, é porque ela simboliza um movimento de placa tectônica que já aconteceu por baixo há muito tempo”, afirmou Solano.
A cientista política também comentou a disputa simbólica da direita entre as mulheres, citando a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro como exemplo de uma figura que combina uma atuação pública com valores religiosos e familiares.
Sobre os jovens, Solano ressaltou o papel das redes sociais e da comunicação digital na construção de uma política mais performática, além de apontar o endividamento como um fator importante de insatisfação.
Ao analisar o cenário eleitoral para 2026, a pesquisadora observou o comportamento do eleitor pendular, que oscila entre nomes da direita e da esquerda. Ela destacou que, antes das recentes controvérsias envolvendo Flávio Bolsonaro (PL), parte desse eleitorado via o senador como uma versão mais moderada do bolsonarismo, enquanto Jair Bolsonaro era percebido como autêntico e bruto.
“Haverá um certo bolsonarismo sem a figura do Jair Bolsonaro, como a gente vê agora. Essa disputa pelo legado do bolsonarismo enquanto campo de disputa política, enquanto quais nomes levarão esse legado”, afirmou Solano.
Além disso, a pesquisadora analisou a relação entre bolsonarismo e evangélicos, destacando um processo de “bolsonarização” especialmente entre segmentos pentecostais e neopentecostais. Ela ressaltou a influência da teologia da prosperidade, a valorização do empreendedorismo e a percepção dos evangélicos como um grupo com protagonismo político próprio.
O programa Desenquadrando, apresentado pelo economista Marcos Lisboa, reúne entrevistas sobre temas que impactam a sociedade brasileira e está disponível no canal da TV Folha no YouTube.
Fonte: FOLHA DE SP | POLITICA









