Bate-boca entre Janja e Silas Malafaia destaca evangélicas de esquerda no cenário político
Por Anna Virginia Balloussier | São Paulo | 13.jun.2026 às 23h00
O recente embate entre a primeira-dama Janja da Silva e o pastor Silas Malafaia trouxe à tona um grupo emergente de mulheres evangélicas alinhadas à esquerda, que há anos buscam construir pontes entre o PT e um segmento tradicionalmente resistente ao lulismo.
Em evento realizado na segunda-feira (8), Janja rebateu as críticas de Malafaia, que em 2025, durante encontro na igreja Coletivação, em Ceilândia (DF), afirmou que a primeira-dama reunia apenas mulheres sem “nenhum pingo de expressão no mundo evangélico”. Janja respondeu: “Insignificante é ele, porque toda mulher para mim é importante”.
O pastor, por sua vez, afirmou que sua fala foi tirada de contexto e destacou a diferença entre “mulheres sem expressão” e “insignificantes”, ressaltando que uma mulher pode não ter expressão pública, mas ser fundamental em sua família e igreja.
Esse confronto evidencia a atuação de um grupo pequeno, porém estratégico para o presidente Lula (PT), formado por mulheres que conciliam fé cristã com pautas progressistas. Elas rejeitam a associação automática entre evangélicos e conservadorismo e buscam disputar a narrativa religiosa, atualmente dominada por pastores alinhados ao bolsonarismo.
Entre elas está Nilza Valéria Zacarias, 54, autora do livro A Casa da Rita, conselheira da Presidência e amiga próxima de Janja. Nilza tem papel fundamental na organização de reuniões pelo país para ouvir evangélicas, majoritariamente negras e de baixa renda, e identificar obstáculos para o campo progressista.
Nilza destaca a importância da mulher no cristianismo, citando exemplos bíblicos como Maria Madalena e Maria, mãe de Jesus, e defende uma leitura da Bíblia sob a ótica feminina. Ela também critica a partidarização dos templos, que, segundo ela, provoca esvaziamento das igrejas devido ao cansaço do discurso político excessivo.
Com raízes em uma família batista e frequentadora da Nossa Igreja Brasileira, Nilza lembra que os evangélicos deixaram de ser um grupo marginalizado e que não há sentido em tratá-los como um bloco monolítico eleitoral. “Não existe um ser humano que se diga somente evangélico na vida. Todo mundo é evangélico e alguma coisa”, afirma.
Ela ressalta que a vida cotidiana dessas mulheres — que enfrentam desafios como transporte público lotado, falta de apoio para cuidar dos filhos e acesso ao sistema de saúde — atravessa suas experiências como evangélicas e cidadãs.
Outro exemplo dessa realidade é Dagmar Santos, 46, mãe, avó, cuidadora, estudante e dirigente partidária, que vive em Lauro de Freitas (BA) ao lado de uma congregação bolsonarista, mas prefere frequentar uma igreja progressista.
Fonte: FOLHA DE SP | POLÍTICA









