A reforma tributária muda a lógica de operação do setor e exige reestruturação imediata de produtores e empresas da cadeia produtiva
A nova tributação sobre o consumo no Brasil deve provocar impactos diretos no agronegócio, afetando desde a formação de preços até a estrutura de contratos e a margem de lucro dos produtores rurais. Mais do que uma mudança na carga tributária, especialistas apontam que o setor entra em uma fase de reorganização estrutural.
Segundo o advogado Pedro Terra, sócio do escritório STG Advogados, a principal mudança está na lógica do sistema. “O foco deixa de ser o tributo isolado e passa a ser a eficiência da estrutura como um todo. A forma como o negócio está organizado agora impacta diretamente o resultado financeiro”, afirma.
Para o especialista, a introdução da CBS e do IBS, com base na não cumulatividade, altera a dinâmica de contratos tradicionais do agro, como barter, arrendamento rural, parcerias agrícolas e acordos com tradings e cooperativas.
“Na prática, a capacidade de gerar e aproveitar créditos tributários passa a influenciar diretamente a rentabilidade das operações. Será necessário revisar cláusulas de preço, equilíbrio econômico e divisão da carga tributária. Contratos mal estruturados podem comprometer a margem”, explica Terra.
Preços e margens sob pressão
A nova lógica de tributação no destino tende a redistribuir o peso dos impostos ao longo da cadeia produtiva. Produtores com menor capacidade de aproveitamento de créditos — especialmente os independentes — devem sentir maior pressão sobre os lucros.
Esse cenário pode impactar diretamente a formação de preços no campo, exigindo ajustes nas estratégias comerciais e maior profissionalização na gestão financeira.
Com a reforma, Pedro acrescenta que estruturas mais organizadas tendem a sair na frente. “Modelos como holdings rurais e empresas com atuação integrada — da produção à comercialização — passam a ter vantagem competitiva. A integração da cadeia permite maior eficiência tributária e previsibilidade. Isso deve acelerar um movimento de consolidação no setor”, avalia o especialista.
Governança e controle ganham protagonismo
A nova tributação também eleva o nível de exigência em relação à governança. Controle de operações, rastreabilidade e organização fiscal deixam de ser diferenciais e passam a ser requisitos básicos.
Produtores rurais com menor estrutura organizacional tendem a ser os mais impactados. A dificuldade de aproveitar créditos e de negociar em condições mais vantajosas pode reduzir a competitividade.
A tendência, segundo o especialista, é de aumento na formação de cooperativas mais estruturadas e maior aproximação com grandes grupos do setor.
Mudança estrutural no campo
Para Pedro Terra, a reforma tributária representa um ponto de inflexão para o agronegócio brasileiro. “Não é apenas uma mudança de imposto. É uma transformação na forma de operar, contratar e organizar o negócio. Quem entender isso rapidamente terá vantagem competitiva”, conclui.
Diante desse novo cenário, o setor deve passar por um período de adaptação, com revisão de estratégias, estruturas e processos — um movimento que pode redefinir o perfil do agronegócio nos próximos anos.








