Não nasci em Goiânia. Sou de Angra dos Reis. Mas morei na capital goiana por quase dois anos — tempo suficiente para entender que ali existe uma dor silenciosa que atravessa gerações. Caminhei por ruas, avenidas, conversei com pessoas e, principalmente, busquei compreender o que foi, de fato, a tragédia do Césio-137. Li relatos, pesquisei documentos, ouvi histórias. E a conclusão é inevitável: Goiânia ainda sofre.
A série “Emergência Radioativa”, da Netflix, escancara essa realidade com uma força difícil de ignorar. Ao assistir cada episódio, não é possível sair ileso. A produção não apenas reconstrói os fatos — ela revive sentimentos, expõe o sofrimento e reabre uma ferida que nunca cicatrizou completamente. Para muitos goianos, não se trata de passado. Trata-se de memória viva, dolorosa, que insiste em permanecer.
O que aconteceu em 1987 não pode — e não deve — ser tratado como um episódio encerrado. O abandono de uma cápsula contendo material altamente radioativo em uma clínica desativada não foi apenas negligência: foi uma irresponsabilidade inadmissível. E mais grave ainda é a sensação de que os verdadeiros culpados nunca responderam à altura pelo que provocaram. Enquanto isso, vítimas seguem lidando com consequências físicas, emocionais e sociais até hoje.
A ferida do Césio-137 pode até estar enterrada em Abadia de Goiás, mas jamais foi esquecida. Ela não será apagada — e talvez nunca totalmente curada. O que resta, então, é tratá-la com respeito, memória e responsabilidade. Porque mais do que relembrar uma tragédia, é preciso honrar quem sofreu — e garantir que algo assim jamais volte a acontecer.








