O futebol é um esporte coletivo que entretém bilhões de aficionados e torcedores. Noventa minutos, 22 jogadores, uma bola e um placar. Divertimento e ócio de segunda a domingo. No entanto, qualquer pessoa que já tenha acompanhado uma partida decisiva sabe que há muito mais em jogo.
O futebol é um extraordinário laboratório das paixões humanas. Nele encontramos alegrias intensas, tristezas profundas, bem como temores e esperanças que resistem até o apito final. Encontramos também desejos manifestos aos gritos repetidos pela turba eufórica e vontades mais cautelosas, explicadas nas lives dos youtubers. Poucas experiências humanas esclarecem com tanta acuidade noções filosóficas preciosas. De Espinosa e Kant.
Para Espinosa, os afetos fundamentais que organizam nossa vida emocional são a alegria e a tristeza. A alegria corresponde a uma passagem para um estado de maior potência do próprio ser. É ganho de potência para agir. E de tesão pela vida. Já a tristeza é o seu contrário. Apequenamento. Perda de tônus. Brochada implacável.
No futebol, alegrias e tristezas vêm antecedidas de dois afetos: a esperança e o temor. Estes formam um par inseparável. Na esperança há ganho de potência ante a expectativa de uma ocorrência desejada, mas ignorada. Já o temor é queda de potência, também decorrente de uma ocorrência apenas imaginada, mas indesejada. E o futebol entra onde nessa história?
Observe um torcedor. Quando seu time marca um gol, ele experimenta uma explosão de alegria. Sua capacidade de agir, sonhar e celebrar parece ampliar-se. O mundo torna-se mais leve. Em contrapartida, quando o adversário marca, surge a tristeza. O torcedor sente-se diminuído, abatido, como se uma parte de sua energia tivesse sido retirada.
Torcida do Corinthians na inauguração de escultura de São Jorge na entrada da Neo Química Arena, em Itaquera
Rafaela Araújo – 23.abr.26/Folhapress
Mais interessante ainda é o que acontece antes do jogo. O torcedor oscila entre a esperança e o temor. Espera a vitória, imagina a taça, projeta comemorações. Mas também teme a derrota, o fracasso e a frustração. O futebol confirma Espinosa como um exemplo de manual: não esperamos sem temer nem tememos sem conservar alguma esperança.
O futebol também permite refletir sobre a distinção entre desejo e vontade proposta por Kant. O desejo está ligado às inclinações, aos impulsos e às satisfações que buscamos. A vontade, por sua vez, é a faculdade racional de determinar nossas ações segundo princípios que reconhecemos como corretos.
Torcedores assistem estreia do Brasil na Copa 2026
Fonte: FOLHA DE SP | ESPORTES









