A influência da Copa 2026 na política das emoções e seus impactos eleitorais

Marcus André Melo
Professor da Universidade Federal de Pernambuco e ex-professor visitante do MIT e da Universidade Yale (EUA)

Eventos esportivos e a racionalidade democrática

Eventos fortuitos e alheios à ação dos governantes — como o desempenho da seleção na Copa do Mundo — influenciam o comportamento dos agentes políticos? A democracia funciona quando os eleitores recompensam bons governantes e punem maus governantes. Porém, se os cidadãos atribuem responsabilidade a governos por acontecimentos que não controlam, a racionalidade do processo democrático fica comprometida.

Autocratas, por sua vez, mobilizam sucessos em eventos para alavancar popularidade, mas sua permanência no poder depende de força bruta e abuso de poder, não de eleições.

Estudo histórico e efeitos emocionais

O debate teve início com um estudo clássico sobre a campanha presidencial americana de 1916, que concluiu que uma série de ataques de tubarão na costa de Nova Jersey teria reduzido o apoio eleitoral ao presidente Woodrow Wilson nas localidades afetadas.

Eventos negativos geram respostas emotivas — como quando pessoas descontam em seus pets as agruras de um dia desastroso. Críticos afirmam que não se trata de irracionalidade, mas de política da atenção: eventos negativos deslocam itens positivos da agenda pública, e vice-versa. Eventos positivos podem encobrir escândalos.

Em casos de desastres, há o chamado efeito “rally round the flag” (união nacional), que pode mitigar os efeitos negativos. Outro mecanismo é o efeito “limelight” (ribalta), em que o desastre joga luz sobre o incumbente, expondo incompetência ou irregularidades e ampliando o desgaste. Em raros casos, o comportamento supereficiente é premiado, mantendo a racionalidade intrínseca de punir e premiar pelo desempenho, alterando apenas a centralidade da questão na agenda pública.

Consequências políticas do desempenho esportivo

Além dos efeitos diretos, há impactos indiretos. Uma pesquisa analisou as consequências políticas do 7 a 1 sofrido pelo Brasil em 2014. Em vez de focar no comportamento dos eleitores, Carvalho et al estudaram a reação do mercado financeiro ao resultado.

Os preços de ativos incorporam expectativas sobre eventos futuros. Após o 7 a 1, ações de empresas vistas como beneficiárias de uma eventual derrota da presidente Dilma Rousseff tiveram forte valorização, refletindo a expectativa de que o desastre aumentaria as chances da oposição nas eleições presidenciais. O mercado, portanto, comportou-se como se milhões de eleitores responsabilizassem o governo por um resultado produzido dentro das quatro linhas.

Vitórias geram o conhecido efeito “feeling good”, que reforça o viés pró-status quo, enquanto derrotas deflagram um sentimento difuso pró-mudança.

Matheus Cunha comemora o primeiro gol que marcou na vitória do Brasil sobre o Haiti por 3 a 0 na Copa 2026.
Foto: Angela Weiss – 19.jun.26/AFP

Fonte: FOLHA DE SP | POLITICA

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